quarta-feira, 16 de novembro de 2011

3.1 A LIÇÃO DAS CRIANÇAS: FAZER-SE PEQUENO

Era a véspera do Natal. O padre acordou muito cedo, como de costume, e dirigiu-se à igreja para fazer a sua oração diante do presépio das crianças. Estava ansioso por conversar com as figuras, mas receava que outras pessoas pudessem ouvir a conversa e, ao entrar, fechou a porta da igreja.   
Acendeu apenas as luzes que iluminavam o presépio para estar mais recolhido. Ao aproximar-se, porém, notou algo estranho: as figuras pareciam menores que o habitual. Chegou a pensar que o sacristão as tivesse trocado por outras menores. Ao chegar mais perto, porém, notou que algo de surpreendente havia acontecido: José havia-se tornado um menino; Maria, uma menina; os pastores, pastorzinhos; e os reis, pequenos príncipes... Além deles, havia novas figuras que antes não tinham estado ali: podiam-se contar ao todo quatros príncipes, ao invés dos três reis magos; um pastorzinho a mais; uma menina próxima de Maria; e um menino perto de José.   
Em voz alta, o padre exclamou:   
– Meu Deus, o que está acontecendo aqui? Que alguém me explique!   
E como ele se tinha dirigido diretamente a Deus, foi o Menino Jesus quem começou a falar-lhe ao coração:   



– Meu padre, por que você se assustou tanto? Já não lhe havia dito que, para entrar no reino de Deus, era preciso fazer-se criança? Pois bem, para entrar no meu presépio e viver o Natal, também é necessário ter coração de criança, fazer-se pequeno. A minha Mãe sempre manteve o seu coração assim: inocente e puro como o de uma criança pequenina, e mais puro ainda, pois não tinha o germe da inclinação para o mal que as crianças trazem dentro de si e que se manifesta quando crescem e se tornam adultas.   
O meu pai, José, sempre viveu com a ternura de um menino pequeno que deseja agradar em tudo ao seu Pai, Deus. Era tal o seu amor que estava o tempo todo voltado para o Pai, confiante no seu poder, sereno apesar das enormes dificuldades por que passou na vida.   
Os meus pastores e os meus reis, ao verem-me no presépio e se despojarem dos seus bens e posses para me servirem e sustentarem, também ofereceram como o melhor dos seus dons o amor dos seus corações de meninos.   
O que você vê agora é a realidade espiritual... No céu, só há crianças, e no meu presépio também.   
– Meu Menino Jesus, nunca tinha pensado assim: que no céu só há crianças, isto é, pessoas com coração de crianças! Mas quem são aquelas outras figuras do presépio? Elas não estavam ali antes!   
– Não as reconhece?! Repare bem nos seus traços: não lhe são familiares? 


– Jesus, desculpe-me, mas a minha memória é muito fraca. 


– Então vou pedir-lhes que elas mesmas se apresentem e expliquem como vieram parar aqui. As crianças, bem comportadas, puseram-se em fila para cumprimentar o sacerdote. 


O pastorzinho disse:   
– O meu nome é Gáudio. Nós conversamos ontem, embora não lhe tenha dito o meu nome. Só que ainda não me havia feito pequeno. Contei-lhe, padre, como superei a minha tristeza ao aprender de São José a ser muito agradecido a Deus pelos seus imensos dons e a viver esquecido de mim mesmo.   
– É verdade, eu o reconheço! Mas como você rejuvenesceu! Por que se tornou um pastorzinho?   
– Depois de conversar com as figuras do presépio, procurei mudar de atitude em casa; em vez de viver em busca da minha satisfação pessoal, passei a viver para a minha esposa e os meus filhos.   
Comecei a sentir uma alegria transbordante e, olhando para Jesus no presépio que montei em casa, disse-lhe em oração:   
“Meu Jesus, como desejo ser como Vós, o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, que conhece profundamente cada pessoa e a chama afetuosamente pelo seu nome, porque a ama de verdade. Que eu saiba conhecer bem todas as pessoas que me estão confiadas e interessar-me até pelos detalhes mais insignificantes de cada uma. Que eu saiba protegê-las do perigo como o bom pastor protege as ovelhas do lobo. Que eu saiba curá-las quando se machucam e levá-las sobre os ombros quando for preciso”.   
E, de repente, o Menino Jesus disse-me: “As suas orações foram ouvidas. Eu lhe dou um coração novo, o coração de um bom pastor”. 


Foi ouvir essas palavras e transformar-me em um pastorzinho, e vir parar aqui no presépio desta igreja.   
O pastorzinho saiu da fila, deixando o principezinho na frente do sacerdote. Esforçando-se por reconhecer os seus traços, o padre perguntou-lhe:   
– Você não é por acaso o homem de terno e gravata com quem falei há uns dois dias? 


– Exatamente. Chamo-me Paupério.   
– Conte-me como foi que você se tornou um principezinho.   
– Bem, foi simples. Diante do presépio da minha casa, montado por minha esposa, disse ao Menino Jesus em oração:   
“Meu Jesus Menino, Rei dos reis, que nos ensinastes que reinar é servir, que é maior aquele que serve, aquele que se torna servo de todos, peço-vos que eu saiba ser rei à vossa maneira. Que, como os reis magos, eu saiba pôr os meus bens a serviço de Deus e dos outros. Que, na minha vida, eu só Vos adore a Vós, Senhor, e nunca mais adore os falsos deuses do dinheiro, das posses, do poder e do status”. E de repente ouvi a voz do Menino no meu coração: “As suas orações foram ouvidas. Eu lhe dou um coração de rei, de um pequeno rei mago”. Ao som dessas palavras, vim parar aqui, no presépio desta igreja, transformado já em um pequeno rei mago.   
O principezinho afastou-se e deu lugar a uma bela menina. Antes que o sacerdote pudesse dizer qualquer coisa, ela começou:   
– Chamo-me Mariana. Fui aquela moça independente, que não se submetia a nada nem a ninguém, nem aos meus pais nem a Deus, e que só se deixava guiar pelos sentimentos do momento. Depois de conversar com as figuras do presépio, decidi ser mais coerente com os meus valores mais profundos e viver de fé, e passar também a comportar-me em casa, nas festas, no namoro, de acordo com as palavras de Cristo e os ensinamentos da Igreja. Disse a Jesus que desejava viver para sempre a pureza da Virgem Maria, que desejava viver sempre ao lado dEla e seguir o seu exemplo, dando uma resposta de fé e generosidade a Deus em cada momento da minha vida. E então Jesus disse-me: “Já que você deseja ser como a minha Mãe, faça-lhe companhia no meu presépio”. E aqui estou.   
O último da fila foi o menino que estava ao lado de São José:   
– Chamo-me José Renato. Estou aqui fazendo companhia a José porque ontem resolvi passar de novo por esta igreja para contemplar o presépio que fala e conversar com Jesus. Disse-Lhe que estava disposto a comprometer-me com tudo o que fosse preciso para cumprir a minha missão na terra, com a mesma valentia e coragem de São José. Que gostaria de ser sempre um escravozinho de José: de comprometer-me também com um trabalho intenso e bem acabado como o seu na oficina de Nazaré, com a esposa que espero encontrar em breve como ele se comprometeu com Maria, e principalmente com a minha vocação cristã.   
Ouvi então o Menino Jesus que me dizia: “O seu pedido é uma ordem para mim”, e vi-me imediatamente no presépio ao lado de São José, a quem tanto admiro.   
Depois de cumprimentar todas as crianças do presépio, o padre voltou-se para o Menino Jesus a fim de agradecer-Lhe aquela imensa graça:   
– Senhor, muito obrigado por toda esta maravilha que os meus olhos vêem. Penso que uma das feridas do meu coração já foi curada: com o passar do tempo, fiquei muito pessimista com relação à capacidade de mudança interior das pessoas. Perdia facilmente a paciência com os meus paroquianos, pois via que voltavam a cair uma e outra vez nos mesmos erros. Agora percebo claramente que, com a graça que o Senhor lhes comunica, são capazes de mudar, e muito: basta olhar para o Gáudio, o Paupério, a Mariana e o Zé Renato. Vós, Senhor, fostes capaz de lhes dar um coração de criança... Já não tenho dúvidas quanto às maravilhas que a vossa graça é capaz de fazer com relação aos outros, mas, com relação a mim, desconfio um pouco não do vosso poder infinito, mas das disposições do meu coração. O meu coração, sem dúvida, envelheceu com o tempo. Antes, sonhava fazer maravilhas por Vós; antes, sonhava com ser santo de altar, não por orgulho, mas para Vos dar uma alegria com a minha vida.   
Hoje noto que o meu coração endureceu:   
– não sou mais tão sensível aos problemas dos outros e a minha alma está “calejada” depois de ouvir tantos problemas e pecados; 
– parece que o meu coração foi guardando profundas cicatrizes das ofensas que sofri na vida, dos desprezos e das faltas de consideração por parte de algumas pessoas; por mais que tenha tentado perdoá-las, ficaram-me algumas reservas e barreiras, algumas defesas difíceis de serem tiradas;   
– fiquei ressabiado com as contínuas críticas que recebi e sei que sempre haverá alguém para me criticar, que é impossível contentar a todos; 
– e o que endureceu o meu coração foi não só a experiência da miséria humana em geral e da maldade de muitos corações, mas a experiência das minhas próprias misérias: da minha falta de paciência e das irritações com as pessoas com quem convivo, das minhas invejas, dos meus apegos e mesmo dos maus pensamentos que me passam pela cabeça. Sei que, em comparação com alguns, e diante de Vós, poderia considerar que as minhas faltas não são tão graves assim, mas... como me deixam longe dos ideais da minha juventude, como me deixam longe de Vós, de quem eu gostaria de ser o mais puro reflexo neste mundo! Jesus, pergunto-Vos: como pode o meu coração voltar a ser o coração de uma criança?   

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