sábado, 19 de novembro de 2011

2.2 - A LIÇÃO DE SÃO JOSÉ: ESQUECIMENTO PRÓPRIO

Outra das pessoas que se aproximaram do presépio foi um homem de semblante triste. Estava  deprimido porque se sentia carente. Ultimamente andava pensando muito em si próprio, fazendo  uma espécie de balanço da vida, mas pesando-a em uma balança antiga – daquelas de dois pratos,  em que em um prato se punha a mercadoria e, no outro, os pesos. No seu caso, o prato onde punha  os pesos era o prato da sua satisfação pessoal.   
Andava insatisfeito com a vida, pois oprimiam-lhe o coração diversos pensamentos: “As pessoas lá  de casa não reconhecem o meu valor, tudo o que faço por elas. Mato-me e esfolo-me para lhes dar  um futuro melhor, segurança na vida, e não percebem!  “Parece que nem sou mais necessário em casa. Já não me consultam sobre as coisas que querem  fazer, apenas me informam o que já decidiram.  “A minha esposa não é mais tão carinhosa como no princípio do nosso casamento. Sempre que está  em casa, só pensa nos filhos e praticamente não tem mais tempo para mim.  “Mesmo no trabalho, percebo que já não sou tão valorizado como era antes. Quase nunca recebo  uma palavra de elogio, e percebo que jovens talentosos são mais apreciados e prestigiados.  “E todos em casa só querem saber dos meus serviços – «Leve-me para cá, leve-me para lá»! Acho  que só sirvo para ser o motorista da família...  “E quando vou descansar um pouco, distraindo-me com um jogo de futebol na televisão, ou  curtindo algum hobby pessoal, uma leitura interessante..., logo alguém reclama, dizendo  praticamente que sou um pai ou um marido ausente.  “Assim não dá. Precisam valorizar-me um pouco mais. Eu tenho os meus direitos”. Pensava assim  até que se pôs diante do presépio, sem outras disposições que contemplá-lo um pouco: “Deixe-me  ver este presépio, ao menos para encerrar a semana com uma imagem bonita”. 


Mas, como não  podia deixar de ser, acabou capturado pela cena e ficou um bom tempo diante dela.   
Quando já ia voltar para casa, o pároco deteve-o:   
– Por favor, posso fazer-lhe uma pergunta? Só queria saber se o senhor gostou do presépio deste  ano... 


– Se gostei do presépio? Fez-me esquecer todas as minhas tristezas. 


Com a curiosidade  atiçada, o sacerdote insistiu:   
– Importa-se de contar-me o que aconteceu? 


– Com todo o prazer! Mas não sei se o senhor dispõe  do tempo suficiente para ouvir-me... 


– Tenho todo o tempo do mundo!, disse o padre, orgulhoso do  seu presépio. 


– Pois bem. Ao aproximar-me deste presépio, andava muito abatido e até deprimido...   
Foi quando resolvi desabafar diante das figuras:   
– Algum homem pode ser feliz nesta terra?, perguntei. Ouvi então uma voz doce e meiga que me  respondia. Olhei melhor e vi que saía da imagem de Nossa Senhora:   
– Se conheço algum homem feliz? Claro que sim! O meu esposo José é um homem feliz,  extremamente feliz, de uma alegria transbordante. 




– Minha Mãe, por que o vosso esposo é tão feliz?   
Nossa Senhora virou-se para São José e disse-lhe:   
– José, acho melhor você mesmo responder-lhe.   
José, como quem já deu muitas voltas ao assunto, explicou-me imediatamente:   
– Porque, na minha vida, só tenho motivos para agradecer a Deus. Sou o homem mais feliz do  mundo, pois tenho por esposa Nossa Senhora, a criatura mais bela e pura que Deus criou, e por filho  na terra o próprio Filho de Deus. Viver com eles é para mim um céu na terra. 


Para minha alegria e  surpresa, Nossa Senhora interveio, arrancando mais confidências de São José. Disse ao seu esposo:   
– José, por que não lhe conta qual foi o dia mais feliz da sua vida? José confidenciou-me:   
– Maria sabe que há dois dias que considero os mais felizes da minha vida. O maior, sem sombra de  dúvida, foi o dia de Natal, quando vi o Menino Jesus pela primeira vez e o tomei em meus braços. E  o outro foi aquele em que entendi que Deus contava comigo para cuidar de Maria e de Jesus,  quando entendi a minha missão de esposo de Maria e pai de Jesus na terra. 


Bem, fiquei curioso por  saber mais sobre esses dias. E pensei: “Se foi Nossa Senhora a colocar o tema, posso perguntar o  que quiser...” E dirigi-me a José:   
– E por que o Natal foi o dia mais feliz da sua vida? 


– Porque Jesus passou a ser também meu filho.  Eu podia vê-lo, cuidar dEle, abraçá-lo..., ter com ele essas manifestações de carinho próprias dos  pais. Maria também sempre me tratou como chefe de família. Quando tomei consciência disso,  prometi a Deus que aquilo que não fui pela natureza – o pai de Jesus –, haveria de sê-lo pelo amor,  pelo cuidado que teria com o Menino, e senti que Deus Pai me confirmava nessa missão.   



– E o segundo dia mais feliz? – Aquele em que acabaram as minhas perplexidades diante da  gravidez de Maria. Nunca duvidei nem pensei mal dEla, pois já intuía que Maria participava de um  mistério inefável que Ela não me podia revelar, mas pensava que esse mistério não me dizia  respeito. E decidi afastar-me dEla, apesar de amá-la tanto, pois pensava que eu não fazia parte dos  planos de Deus. Foi quando Deus me disse, por intermédio de um anjo que me apareceu em sonhos:   
– “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que nEla foi concebido é obra do  Espírito Santo”. 


Entendi então que Maria tinha sido escolhida para ser a Mãe do Messias: só Ela  podia merecer esse privilégio. E entendi que eu também devia ter um papel nesse plano grandioso  de Deus.   
Maria quis mostrar-me com mais clareza ainda a grandeza de alma de José e explicou-me:   
– José, como era santo, era incapaz de pensar mal de ninguém ou de julgar alguém  precipitadamente. E como me amava, não quis difamar-me, preferindo ficar ele pessoalmente muito  malvisto diante da opinião pública. Se ele me deixasse, como pensava fazer, o povo o chamaria de  tudo: irresponsável, covarde... Pensariam que ele me tinha deixado grávida e depois não quisera  assumir a responsabilidade de criar um filho... E dessa forma eu ficaria em paz, inocentada. José,  como sempre, preferiu ficar mal ele para que eu ficasse bem!   
A seguir, São José continuou:   
– Você pode imaginar o alívio que experimentei quando soube que não precisava separar-me de  Maria. O anjo disse-me que não temesse recebê-la. Que felicidade! E assim o fiz, o mais rápido  possível. Além disso, o anjo revelou-me a minha própria missão com relação a Jesus, ao dizer-me:  “Pôr-lhe-ás o nome de Jesus, porque salvará o seu povo dos seus pecados”. Deus queria que eu  assumisse o papel de pai de Jesus dando nome ao seu Filho. 


Maria interveio novamente:   
– José foi o melhor pai que Jesus poderia ter. Quando Herodes procurava Jesus para matá-lo, José  levantou-se de noite, tomou-nos consigo e partiu para o Egito. E quando já era hora de voltar,  também o fez com sabedoria. Depois de Jesus, nunca vi outra pessoa tão sintonizada com a Vontade  de Deus. Meu filho, você me perguntou no começo por que José era feliz. Além dos motivos que  ele já lhe contou, penso que há um outro grande motivo para a sua imensa alegria: nunca pensou em  si mesmo e, por isso, nunca teve problemas pessoais. Vivia pensando em Jesus e em mim. Mesmo  nas dificuldades, estava sempre sereno e feliz: bastava-lhe estar conosco, era tudo o que queria.   
Padre, o presépio disse-me assim tudo o que eu precisava ouvir naquele momento. Já podia tirar as  conseqüências por mim mesmo. Tirei-as e as depus aos pés do Menino Jesus, como o meu presente  de Natal.   
Se José era o homem mais feliz do mundo por ter Maria como esposa e Jesus como Filho, eu  também tinha Maria e Jesus: Maria como minha mãe, já que Jesus nos deu Nossa Senhora como  Mãe; e o próprio Jesus, sempre que me aproximava da Sagrada Comunhão. Só com isso, tinha  motivos de sobra para estar feliz e agradecer muito a Deus.   
Além dos dons sobrenaturais – principalmente a fé –, tenho que agradecer a Deus os enormes dons  que me concedeu na vida: uma família bem constituída, um bom trabalho, saúde, um vasto círculo  de amizades, um sem-fim de dons e talentos que Deus me proporcionou.   
Concluí também que os meus problemas pessoais vinham, no fundo, de que eu pensava demais em  mim, na minha própria satisfação pessoal. José ensinou-me que o importante é sabermos passar por  cima de nós mesmos para podermos cumprir da melhor forma possível a nossa missão.   
Pedi a Jesus Menino, como presente de Natal, que eu soubesse viver esquecido de mim para  encontrar a alegria profunda da doação desinteressada aos outros:   
– Jesus Menino, que eu não me importe de que outros sejam mais apreciados e amados; de que  outros ocupem posição de mais destaque; de que outros tenham algum talento que eu não tenho.  Jesus Menino, que só me preocupe de pôr todos os meus talentos a serviço da missão que Deus me  confia, e os use para servir as pessoas que tenho à minha volta. 
Bem, padre, já está ficando tarde,  devo ir andando, pois a minha família pode estar precisando de mim.   
O padre começou a sentir uma saudável “inveja” das conversas dos seus paroquianos com o  presépio das crianças. E foi deitar-se com o firme propósito de, no dia seguinte, pôr-se também ele  mesmo diante do presépio para ouvir o que tinha a dizer-lhe.   
  

Um comentário:

  1. Uma bela lição de vida. São José, rogai por nós 🙏

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