sábado, 19 de novembro de 2011

2.1 - A LIÇÃO DE NOSSA SENHORA: A RESPOSTA DA FÉ

No dia seguinte, uma moça que viera assistir a um casamento na igreja aproximou-se do presépio,  pois gostava de olhar as figuras. Emocionava-se ao contemplar a cena tão singela e comovente do  nascimento de Jesus em Belém.   
Era uma moça de bons sentimentos e temperamento forte, mas de fé fraca. Quando os seus pais a  corrigiam ou lhe davam bons conselhos, quase sempre respondia:   
– Eu sei como comportar-me. Não me venham dizer o que devo e o que não devo fazer. Já sou bem  “grandinha” e capaz de tomar conta da minha vida.   
Aliás, não aceitava conselhos vindos de ninguém. Embora fosse católica, não acatava o que a Igreja  dizia sobre o modo de os cristãos se comportarem. Achava que a fé nada tinha a dizer quanto à sua  vida pessoal: quanto ao namoro, à forma de vestir e aos programas que fazia, quanto à sua forma de  tratar os pais e conhecidos, enfim, a tudo o que fazia. Tanto que, quando alguém lhe recordava  algum preceito da Igreja ou os mandamentos de Deus, revoltava-se e dizia:   
– Eu é que sei o que é bom e o que é mau para mim. Que ninguém me venha dizer o que é certo e o  que é errado. 
Essa era a ferida que trazia aberta no coração: uma fé fraca, baseada apenas em  sentimentos e opiniões, e não nos ensinamentos de Cristo e da sua Igreja.   
Vendo-a demorar-se junto do presépio, o sacerdote, depois que ela terminou, aproximou-se dela e  perguntou-lhe:   
– Vejo que você está emocionada; que aconteceu? Perguntou alguma coisa ao presépio? 
– Padre,  não sei se o senhor vai acreditar no que lhe vou contar. Mas as figuras do presépio falaram-me ao  coração. 
– É claro que acreditarei. Elas têm dito muito a várias pessoas. 
– Padre, não sei se o senhor  entenderá bem o que vou dizer. Quando vi o seu cartaz, atrevi-me a fazer uma pergunta aberta a  todas as figuras do presépio:   
– Digam-me: de que modo surgiu o Natal? E como fiquei surpresa quando São José começou a  responder a essa pergunta que eu tinha lançado ao ar:   
– Como surgiu o Natal? O Natal surgiu da plena aceitação dos planos de Deus por parte da minha  esposa, Maria. 




E pôs-se a explicar-me:   
– Quando Deus enviou o Arcanjo Gabriel a Maria, para anunciar-lhe que tinha sido escolhida entre  todas as mulheres para ser a Mãe de Jesus, o Filho do Deus Altíssimo, Maria livre e amorosamente  respondeu que sim a Deus, aderindo de corpo e alma à sua vontade. Nesse momento, surgiu o Natal  no coração de Maria. Embora São José tenha sido muito delicado na sua resposta, senti-me acuada pela sua explicação, pois vislumbrei o enorme contraste entre a reação de Nossa Senhora e a minha.   
E respondi sem pensar, como tantas vezes faço:   
– Mas Nossa Senhora não disse que sim tão facilmente, sem reclamar; Ela também disse ao Anjo:  mas como?! 
Padre, nesse momento levei um susto enorme, pois o anjo do presépio saiu voando até deter-se na minha frente, para ele mesmo responder à minha pergunta. Penso que era o próprio Arcanjo Gabriel, porque estava bem a par de tudo o que tinha acontecido na Anunciação. O Anjo,  então, disse-me:   
– Nossa Senhora de forma alguma disse mas como?!; simplesmente perguntou como...? É verdade  que muitas pessoas dizem como? quando querem desculpar-se e esquivar-se à vontade de Deus para  com elas. Aliás, confesso que já estou cansado de ouvir as suas desculpas: “Como posso rezar ou  dedicar-me mais a Deus no meu dia, se não tenho tempo nem para mim?  “Como posso entender-me melhor com as pessoas da minha família, se elas não me ouvem, se eu  não tenho jeito nem paciência para tanto «papo furado»?  “Como posso superar esse defeito, se sempre fui assim?  “Como falar de Deus com os outros, se eu morro de vergonha?  “Como viver a caridade no meu ambiente de trabalho, se todo o mundo se dedica a falar mal dos  outros?  “Como namorar direito, se todo o mundo namora de outro jeito?” É verdade que as desculpas que  começam com a palavra como são intermináveis! Mas o como de Maria foi totalmente diferente.  Foi uma pergunta generosa, amorosa e amável. Perguntou como porque queria saber exatamente de  que modo cumprir na sua vida o que Deus lhe pedia. “Como será isto? Como devo comportar-me?”,  e não ao contrário.   
Padre, foi então que Nossa Senhora tomou a palavra. Reparei que, enquanto Ela falava, o anjo do  Senhor se inclinou em sinal de profundo respeito pelas suas palavras. E Maria disse-me:   
– Eu não esperava ser a Mãe do Messias, do Salvador. A bem da verdade, eu até já havia descartado  essa possibilidade quando me decidi a permanecer virgem para sempre. Se perguntei como, foi  porque queria saber como poderia ser virgem e mãe ao mesmo tempo. Se perguntei como, foi para  dar um sim totalmente consciente ao que Deus me pedia. E o Anjo foi muito delicado e atencioso  comigo, pois respondeu detalhadamente como seria tudo: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força  do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso mesmo o Santo que nascerá de ti será chamado  Filho de Deus”. O anjo voltou a intervir, fazendo-me notar a importância fundamental da resposta  de Nossa Senhora na história da nossa salvação:   
– Nesse momento, todo o céu parou, todos os anjos ficaram pendentes da resposta de Maria. Que  alegria sentimos todos quando ouvimos as suas sublimes palavras: “Eis aqui a escrava do Senhor,  faça-se em mim segundo a tua palavra”. Nesse momento, Deus encarnou-se no seio da Virgem  Maria para habitar entre os homens. Houve um imenso resplendor de luz no céu, um clarão tão  intenso como nunca houve igual. Nem mesmo no dia da Criação, quando Deus disse: “Faça-se a  luz”, foi assim. Quando Maria disse: “Faça-se em mim”, começou a brilhar a luz da Redenção, da  Salvação do mundo, mais brilhante ainda que a própria luz da Criação do universo. 


  
Essas palavras tocaram a fundo a minha alma. Perguntei então ao anjo:   
– Então quer dizer que Nossa Senhora não vacilou nunca? Nunca impôs condições nem levantou  restrições a Deus? 
– Exatamente. Que diferença – não é verdade? – entre o coração imaculado de  Nossa Senhora e o coração das outras criaturas humanas! Vocês, seres humanos, têm um péssimo  costume: o de negociar com Deus. “Vou fazer isso que Deus me pede, se antes Ele me conceder  aquilo que estou pedindo”, “Se passar nesse concurso, vou rezar um terço”, “Só vou à Missa no  final de semana se conseguir colocar em dia os meus assuntos pessoais”, “Serei amável com os  outros se eles forem amáveis comigo”, “Vou andar com esses amigos enquanto for legal para mim  andar com eles”...   
Por fim, São José, com quem o diálogo tinha começado, voltou a intervir, concluindo:   
– Eu sou testemunha de que Maria nunca impôs condições ou restrições a Deus. O seu sim foi total  e para sempre. Ao longo da sua vida, manteve o mesmo brilho, a mesma força e a mesma alegria  em todas as circunstâncias, nas fáceis e nas difíceis, nas felizes e nas dolorosas. As dificuldades  nunca anularam nem enfraqueceram esse seu sim. Maria foi sempre fiel a Deus.   



Padre, desculpe-me se eu me comovo agora, ao pensar novamente no sim irrestrito de Maria!   
Enfim, depois desta conversa com as figuras do presépio, ajoelhei-me diante do Menino Jesus e, em  oração, disse-Lhe:   
– Perdão, meu Deus, por todas as vezes em que preferi a minha opinião à vossa palavra de verdade  e de amor, e sem fundamento nenhum! Perdão também pelas vezes em que Vos desprezei ao  desprezar os ensinamentos da vossa Igreja. Meu Deus, dai-me a fortaleza da vossa graça para  cumprir a vossa amável vontade, mesmo que me custe. Meu Menino Jesus, fazei-me também  criança pequena diante de Deus, para que me deixe guiar pela vossa mão poderosa e pela vossa  imensa sabedoria. 


Voltei-me para Nossa Senhora e disse-lhe:   
– Minha Mãe, que os meus comos sejam semelhantes aos vossos: visando sempre descobrir a  vontade de Deus a meu respeito e encaminhados a dizer-Lhe um sim incondicional, a dar sempre  uma resposta amorosa de fé. 


Padre, só agora que percebi quanto tempo fiquei aqui diante do  presépio! Preciso ir andando; senão, os meus pais podem ficar preocupados. Muito obrigada por  este presépio!   
  

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