domingo, 20 de novembro de 2011

1.2 A LIÇÃO DOS REIS MAGOS: ASSUMIR COMPROMISSOS COM DEUS


A segunda pessoa de quem o sacerdote se aproximou foi um rapaz. Era um jovem entusiasmado pela vida, com grandes sonhos por realizar, com um coração bom, com desejos de se comportar bem, de ser um bom cristão. Mas algo travava o seu coração e lhe diminuía a alegria e a descontração: o medo de se comprometer demais com qualquer coisa na vida.
Temia comprometer-se com uma moça e namorar a sério para chegar ao casamento; receava aprofundar demais na intimidade com Deus na sua oração, temendo ser chamado por Ele para algo maior; não se comprometia nem com os amigos, por receio de que acabassem tomando muito do seu valioso tempo; enfim, temia perder a liberdade, prendendo-se a qualquer coisa. Por isso, andava pela vida com “o freio de mão puxado”. 


O sacerdote, que não conhecia as suas disposições interiores, foi-lhe perguntando:
– Pode dizer-me o que o presépio lhe segredou? 


Já mudado, o rapaz respondeu-lhe: Posso, sim, e aliás preciso, pois tenho necessidade de desabafar. Quando li o cartaz que estava ao lado do presépio, achei muito comprometedor o que dizia: “Deixe que os personagens lhe falem, ouça as suas confidências e impressões pessoais”. Confidenciar-me com uma pessoa, abrir de verdade o meu coração, era um risco que eu não estava disposto a correr.
Achando que dava uma de esperto, dirigi-me a um personagem inanimado do presépio: à estrela de Belém..., com uma pergunta que a princípio não parecia nem um pouco comprometedora: “O que você está fazendo aí?” Não esperava resposta nenhuma de uma estrela. E, se me respondesse alguma coisa, provavelmente diria: “Eu?... Nada. Estou aqui parada, dando um pouco do meu brilho à noite”.


Só que, para minha surpresa, a estrela respondeu-me de maneira totalmente desconcertante:
– Eu sou a estrela da vocação, da vocação dos reis magos; e não só da deles, mas também da de todos os cristãos, e portanto também da sua! 


Assustei-me com essa interpelação tão direta e, para fugir do tema, desviei o assunto para bem longe de mim:
– Por que você diz que é a estrela da vocação dos reis magos? 


– Não conhece a história? – perguntou-me a estrela –. Pois bem, eu lhe conto. Uns reis magos, esses que você vê logo ali em frente, estavam no Oriente, quando Deus me enviou para anunciar-lhes, na sua linguagem, que ia nascer um rei. Pelo meu brilho, perceberam que se tratava de um rei muito especial: que o Rei de Israel era o rei do mundo inteiro, que era o Messias, o Filho de Deus prometido aos judeus. Mas não foi nada simples, nada fácil, conseguir que os três reis me vissem. 


– Mas por quê – perguntei-lhe –, se você é uma estrela tão brilhante?! 


– Não digo ver com os olhos, pois foi precisamente ao verem o meu brilho que ficaram intrigados, pesquisando, perguntando-se em que isso lhes dizia respeito. Difícil foi quererem ver mesmo: quanto mais claro ia ficando o meu significado para eles, mais dificuldade tinham em encarar-me... Eu anunciava a vontade de Deus para eles, era uma chamada do próprio Deus, criador do universo, Senhor da História da humanidade e Senhor das suas vidas. Era uma chamada que exigia uma resposta, um pedido que solicitava uma correspondência, que comprometia. Graças a Deus, perceberam que essa chamada vinha de Deus, não de mim: eu só lhes mostrava o caminho que Deus queria que percorressem nas suas vidas. Deram-se conta de que esse era o sentido mais profundo das suas vidas...
Respondi à estrela:
– Impressionante! Eram, sem dúvida, uma chamada e uma missão muito especiais: adorar o Menino Deus pessoalmente e oferecer-Lhe os seus dons. 


A estrela respondeu-me:
– Mais impressionante ainda foi a forma como corresponderam a essa chamada... Prepararam-se imediatamente para empreender a viagem seguindo as minhas indicações. O trajeto foi longo e penoso. Passaram por desertos sem uma gota de água. Passaram por montanhas cheias de neve e de abismos ameaçadores. Dormiram muitas vezes ao relento, passaram frio, tiveram medo... E Deus pediu-me, em um determinado momento, que me ocultasse, me escondesse. Mas os reis, que já sabiam a direção, não hesitaram em continuar a caminhar...


Nesse momento, voltando-me para eles, perguntei-lhes:
– Vocês não tiveram a tentação de desistir? Não pensaram que Deus estava pedindo muito de vocês? Não pensaram que o sacrifício era demasiado? Eles, sorrindo, disseram-me com a maior simplicidade:
– Vimos a estrela e viemos. E valeu a pena... Encontramos a Deus, que precisava de nós, do nosso carinho, dos nossos dons. Se os nossos dons, que o próprio Deus nos concedeu na vida, não são para Ele, que sentido têm? Que sentido tem a nossa vida? Ao doarmo-nos a Deus, recebemos muito mais em troca: a felicidade indescritível da sua companhia.



– É verdade, vocês tiveram a sorte de ver a estrela de Belém... 


A estrela interrompeu-me, impaciente:
– E você, pensa que não sou também a sua estrela? Acha que Deus não contou com você nos seus planos? Pensa que há algum filho de Deus que não tenha recebido um chamado e uma missão a cumprir na terra? Ou será que você é o único que veio à toa para este mundo, sem nenhuma finalidade a cumprir?
Fiquei sem palavras ao ver-me posto assim “contra a parede”. Mas os reis continuaram:
– Rapaz, é verdade. Cada um de nós tem a sua estrela. E como é importante vê-la!, porque só então se entende o sentido da vida. A estrela é a nossa vocação, e a sua luz indica e esclarece a nossa missão, aquela que Deus nos confiou. Todo o cristão tem a sua estrela. A estrela da vocação ilumina não apenas a nossa relação pessoal com Deus, mas toda a nossa vida, mostrando-nos o que Deus espera de nós na nossa família, no nosso ambiente de trabalho, em relação aos nossos parentes e amigos, na nossa sociedade como um todo... Para alguns, a estrela aponta para o casamento como caminho da sua vida; a outros Deus pede mais, pede o coração por inteiro... E a nossa realização e felicidade mais profunda está em sermos fiéis à nossa estrela. Quando abrimos os olhos para enxergar a nossa estrela, fica claro o sentido de toda a nossa existência. Todas as peças da vida passam a ocupar o seu lugar, como as peças de um mosaico: o passado e o presente, os sonhos, o trabalho, o amor, as dificuldades, tudo fica mais claro e se harmoniza com o restante.
Eu, que ainda resistia a essa avalanche de argumentos, defendi-me:
– E a minha liberdade, como é que fica? 


Os reis, pacientemente, disseram-me: 


– Liberdade, para quê? A liberdade é para algo... A liberdade não tem sentido se não é para algo... Se não, não é liberdade, mas escravidão. Ficamos presos à falta de compromisso na vida. Ser livre não é ser nada nem ninguém. A nossa verdadeira liberdade está em podermos realizar a missão que Deus nos confiou nesta vida. 


E a estrela concluiu:
– E quem vive assim é feliz. Veja a alegria dos reis magos. Eles encontraram a Deus e ficaram repletos de uma profunda alegria. 


Padre, essas palavras tocaram-me o coração! Depois disso, diante do Menino no presépio:
– comprometi-me a não me esconder da minha estrela... e a fomentar o desejo de ver a minha vocação; 
– entendi que toda a decisão nos compromete: mesmo quando não nos mexemos, comprometemos-nos com a inércia e a inatividade; 
– entendi que vale a pena comprometer-me com aquilo que tem valor, e principalmente com aquilo que Deus me pede; 
– vi que estava sendo egoísta ao não querer comprometer-me com nada nem com ninguém..., a não ser com a minha comodidade. 
Peço que o senhor reze para que eu consiga ver a minha estrela e a segui-la.
Nessa noite, antes de fechar a igreja, o sacerdote disse a Jesus no presépio: “Senhor, eu não pedia tanto”.

4 comentários:

  1. Parabéns pelo blog. Eu tenho este livro e como decidi divulgar o livro na minha diocese, acabei encontrando o site na internet.

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  2. Parabéns pelo blog. Eu tenho este livro e como decidi divulgar o livro na minha diocese, acabei encontrando o site na internet.

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  3. Esqueci de me identificar. Ronaldo
    E-mail: ronaldosa@yahoo.com

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  4. Aii que lindoo conto, padre!! E esse trechinho, que profundo e verdadeiro! "Ao doarmo-nos a Deus, recebemos muito mais em troca: a felicidade indescritível da sua companhia."
    Adorei o blog. Que Nosso Senhor o abençoe!

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