domingo, 20 de novembro de 2011

1.1 - A LIÇÃO DOS PASTORES: DESPRENDIMENTO


A primeira pessoa a quem perguntou era um homem muito bem apessoado, vestido com um terno muito elegante, e que lhe respondeu com muita gentileza:

Padre, o presépio disse-me ao coração exatamente o que eu precisava ouvir. Antes de vir aqui olhálo, andava de coração apertado, não porque a minha vida corresse mal, mas, pelo contrário, porque corria bem demais. O problema é que assim eu estava colocando o meu coração nas coisas deste mundo, e desse modo me ia afastando de Deus. 


Deixe-me explicar-lhe.
Posso dizer que sou um homem profissionalmente bem-sucedido, que tenho um bom ordenado, que nada de material me falta. Mas quanta falta sentia de ter sempre mais! Mal acabava de comprar alguma coisa – uma roupa, um celular, um computador, um carro... –, já me parecia insuficiente.
Logo começava a sonhar com algo melhor, mais bonito e vistoso, mais confortável, mais rápido, mais bem equipado... E essas coisas passaram a ocupar grande parte do meu tempo mental.
Além do mais, comecei a ficar cheio de medos bobos: de ficar desempregado, de os meus negócios passarem a correr mal, de perder os bens que tinha conquistado, de ter que deixar as mordomias que tinha... Tinha muito medo de ficar pobre. E devo reconhecer também que passei a valorizar as pessoas pelo seu modo de vestir – se andavam com roupas de grife – ou pelo seu status social – se ocupavam uma posição de destaque na sociedade, se tinham sobrenome, se tinham posses...
Ao aproximar-me do presépio, como não podia deixar de ser, atraíram-me as figuras dos reis magos com as suas ricas vestes, os seus tesouros, toda essa pompa que se espera dos reis. Foi quando li o seu cartaz: “Deixe que os personagens lhe falem” e, quase sem pretendê-lo, dirigi-me aos reis e perguntei-lhes:
– Meus caros amigos – tinham tudo para serem meus amigos: dinheiro, status, posses e pose –, digam-me por que, no presépio, ao lado dos senhores se encontram esses pastores maltrapilhos?


Qual não foi a minha surpresa quando percebi que podia ouvir as suas vozes no meu coração:
– Porque eles chegaram primeiro... Quando nós chegamos, eles já estavam aqui. E por sinal, foram tratados por Deus de maneira ainda mais atenciosa do que nós. Nós recebemos o convite para nos pormos a caminho da gruta através da Estrela de Belém. Quanto a eles, Deus envolveu-os com o seu esplendor e enviou-lhes um cortejo de anjos do céu que anunciavam alegremente o nascimento do Messias: “Eis que vos anuncio uma boa nova, que será para todo o povo: hoje vos nasceu, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor!” 


– É verdade! – ouvi a voz de um pastor –. Mas que susto levamos! Com que medo ficamos! Tanto que o anjo começou por acalmar-nos, dizendo suavemente: “Não tenham medo”. 


Padre, para falar a verdade, não gostei muito dessa interrupção na minha conversa com o rei. E perguntei-lhe baixinho:
– Mas por que Deus trataria assim uns homens pobretões? 




O rei respondeu-me:
– Você já deu a resposta. Exatamente por serem pobres no sentido mais profundo das palavras, pois têm o coração desprendido das coisas da terra. Por que Deus não havia de compartilhar o seu nascimento com aqueles que compartilhavam da sua pobreza?
O pastor ouviu tudo e mais uma vez interveio:
– Jesus não viveu uma pobreza como a nossa. Nós somos pobres, mas não tanto como Ele! Os nossos filhos têm uma casa onde nascer, uma cama onde dormir, o abrigo de um teto... Jesus não teve casa onde nascer: o seu berço foi uma manjedoura coberta de palha, e o calor veio-Lhe do bafo de um boi e de um burro, que não dava para muito no frio daquela noite. Agora me lembro também de que a pobreza foi o sinal que o anjo nos deu para que pudéssemos reconhecer o Messias: “Achareis um recém-nascido envolto em panos e posto em uma manjedoura”. Que pobreza extrema! 


Diante disso, exclamei:
– Mas por que Deus preferiu a pobreza? Por que quis nascer assim?



Disse-me o pastor:
– Também não sei. Só sei que não Lhe faltou nada, pois tinha o amor de duas criaturas maravilhosas: Maria e José. E ao vermos a alegria daqueles pais, entendemos que, para ser feliz, o mais importante não é ter uma vida abastada, confortável, cômoda, mas um coração enamorado, apaixonado por Deus!
Padre, emocionei-me com aquelas palavras tão simples e profundas do humilde pastor, que me davam uma enorme lição de vida. Fiquei pensativo. E diante do meu silêncio, o rei completou o que eu precisava ouvir:
– Como foi bonito o gesto dos pastores na noite de Natal! Ao encontrarem o Menino Jesus na manjedoura, adoraram-no e deram generosamente à Sagrada Família tudo o que podiam e que certamente lhes fazia falta: pão, queijo, leite, um cordeirinho novo.
O pastor interveio:
– Mas, senhores reis, vocês também deram tudo o que podiam – ouro, incenso e mirra –, e essas coisas valiam muito mais do que as nossas pobres prendas. E ao colocarem esses presentes tão valiosos aos pés de Jesus, transmitiram ao mundo inteiro esta mensagem: “Todo o ouro do mundo, ao lado do nosso Deus, de Jesus Menino, é pó. Todas as coisas materiais, se não nos levam a adorar a Deus, se não as usamos de acordo com o espírito de Cristo para louvar e servir a Deus e amar os outros, são lixo, são lama em que nos atolamos”.



O rei respondeu:
– Assim é. Concordamos plenamente: o verdadeiro tesouro é ter o coração desprendido, ter um coração capaz de maravilhar-se com aquilo que realmente tem valor aos olhos de Deus: a generosidade, a doação, o amor... Um coração apegado e egoísta não saboreia as coisas do alto, as maravilhas de Deus. 


Padre, assim terminou esse diálogo que pude ouvir no meu coração. Fiquei parado aqui um bom tempo, pois uma vez entendida a lição do presépio dirigida ao meu coração, devia assimilar tudo e mudar de conduta. Por isso, diante de Jesus na manjedoura disse-Lhe:
– De agora em diante, vou-me esforçar por contentar-me com pouco..., com o mínimo necessário para passar a vida com sobriedade e temperança; 
– procurarei não criar falsas necessidades, levado por caprichos pessoais. Não irei mais à caça de bens supérfluos; 
– não me queixarei mais quando sentir falta de algo na minha casa. Oferecerei essa limitação a Deus, que sofreu verdadeiras privações na sua vida; 
– não julgarei mais o valor das pessoas pelas aparências..., pois entendi que os verdadeiros ricos, aos olhos de Deus, são os pobres em espírito; 
– e procurarei adorar só o meu Deus, que é o meu verdadeiro tesouro, o único que nunca pode faltar na minha vida. 


Impressionado, o padre deu graças a Deus por ter falado ao coração daquele homem, que assim tinha escancarado as portas do seu coração para permitir a Jesus que nascesse nele no Natal. 

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